Direto para o CEO: A Governança Corporativa Falhou
A cultura de negócios anglo-saxã, pela sua própria formação, evoluiu mais velozmente ao longo dos últimos 100 anos muito por conta do compartilhamento de crenças comuns sobre a prosperidade (fruto do modelo protestante de tratar a questão do trabalho, do desenvolvimento e da riqueza), reforçadas pelo cultivo da mútua confiança entre os agentes e instituições econômicas, muitas vezes representadas por seus porta-vozes (fundadores, sócios, CEOs, etc) em seu posicionamento e ciclo de negócios. Em outras palavras, a credibilidade do sistema econômico anglo-saxão esteve lastreada nas características do próprio sistema, mas também na credibilidade de seus expoentes individuais, seus líderes e formadores de opinião. Isso foi fundamental para a solidez da economia nesses países... mas também o ponto nevrálgico escolhido pelos agentes econômicos irresponsáveis e/ou mal-intencionados para fraudar o próprio sistema e se locupletar individualmente.
Com a reinvenção do ciclo econômico, magistralmente concebida pela genialidade do maestro Alan Greenspan na década de 90, emergiu uma certa sensação de auto-suficiência corporativa, que culminou no enaltecimento e endeusamento de falsas lideranças e escroques, cuja única motivação parece ser a multiplicação do dinheiro, sem atentar ou se preocupar com fatores importantes para o negócio, como qualidade, produtividade, consistência, proteção, perenidade, consciência cidadã, responsabilidade, ética, transparência e até idoneidade. Entramos com tudo na era do CEO super-homem, media-oriented, que tinha como atribuição central aumentar os valores corporativos e, com isso, ser premiado com polpudos bônus periódicos.
É importante notar que, ao contrário da tendência atual de mutilamento e execração do reinado e do legado de Greenspan, podemos concluir, através de nossas análises, que com todas as informações que o maestro dispunha no momento, ele conduzira como nenhum outro a fanfarra econômica criada pelos predadores de Wall Street, devidamente respaldados pela estupenda e magnífica liquidez gerada pelas exacerbações e desconfigurações dos ativos financeiros.
Sempre é bom lembrar que, após o fim do acordo de Bretton Woods, os ativos financeiros descolados do padrão ouro adentraram em uma corrida desenfreada, se desprendendo da verdadeira riqueza produzida pelas nações, de tal forma que o PIB mundial de 2007 atingiu um valor de US$ 55 trilhões, segundo dados da McKinsey. Tudo isso sem contar os mais de RS$ 500 trilhões relativos às operações com derivativos (lembremos do legado Milchael Milken).
Esse pano de fundo serve para relatar, sob o ponto de vista antropológico, a mudança de comportamento do dinheiro. O grande pecado da exuberância irracional dos mercados nos últimos 20 anos foi bastante insuflado pelo florescimento e ascensão, nos chamados países desenvolvidos (principalmente os EUA), das gerações x e y, que não conheceram a realidade cruel dos ciclos econômicos anteriores.
Aliás, acreditamos que esse fator compõe parte do motivo pelo qual o Brasil não deve mergulhar nesta crise com a intensidade que estes países mergulharam. Isso porque a nossa realidade crua dos últimos 20 anos foi composta por um excesso de crises sem parâmetros, a lembrar – Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor e o traumático confisco de ativos, potencializada por demissão de presidente, Itamar Franco e suas mazelas, crise do México, crise dos Tigres Asiáticos, crise da Rússia, desvalorização cambial de 99, preocupação dos mercados pré Lula... Ao contrário, os únicos anos atípicos em nossa histórica recente foram os três últimos (pós-mensalão), quando engatamos crescimentos contínuos e sustentáveis. Em outras palavras, esquecemo-nos do famoso “vôo da galinha” tupiniquim, o tal do sobe e desce da economia.
No caso dos chamados países do primeiro mundo, a geração de riqueza artificial promovida pela inflação dos ativos financeiros promoveu também a formação de uma casta corporativa (tanto investidora, como gestora/executiva) de indivíduos altamente imediatistas, egocêntricos e insensíveis, que se aproveitaram justamente do principal pilar do sucesso do modelo econômico anglo-saxão - a crença nos indivíduos e nas instituições – para fraudá-las.
A revista Fortune, em brilhante reportagem, desmascarou a farsa denunciando o festival de hipocrisia dos barões de Boston. Algumas citações são simplesmente memoráveis:
- Alguns meses antes da débâcle do AIG, seu CEO Martin Sullivan, deu uma declaração mostrando a sua crença nos resultados e na razoabilidade dos métodos de avaliação da empresa.
- O CEO da Bear Stearns, Alan Schwartz, declarou que a liquidez e o balanço da empresa eram muito fortes e que não vislumbrava nenhuma pressão ou crise na liquidez da companhia. Esta declaração pública foi dada apenas 36 horas antes da intervenção do Banco Central Americano.
- O CEO do Countrywide Financial Corp. declarou que as análises sugerindo que a empresa apresentava problemas de liquidez eram totalmente irresponsáveis e sem sustentação.
- O CEO da Fanny Mae disse que a empresa não necessitava de capital, pois era produtora de capital e a posição da empresa era bastante confortável no mercado (seu nível de capital era de US$ 17 bilhões acima do nível estatutário).
- Richard Fuld, o “inesquecível” presidente do Lehman Brothers, bradou que a empresa estava na trilha certa para deixar os últimos dois trimestres para trás. No mesmo dia, o seu diretor financeiro comentou que o nível de liquidez da empresa permanecia forte, com US$ 42 bilhões, e que apesar das convulsões do mercado a empresa crescia, bem como sem correr riscos, estando segura. Ambas as declarações foram dadas apenas cinco dias antes da catastrófica intervenção maquinada pelo irresponsável e omisso secretário de tesouro do governo americano.
Sempre é bom lembrar e registrar que, no mesmo final de semana que selou a quebra do Lehman, arquitetou-se de forma irresponsável e esquisita a venda do dilacerado Merrill Lynch por módicos US$ 50 bilhões ao Bank of América.
Traduzindo, contrariando-se todos os fundamentos da lógica de investimentos corporativos e das boas práticas de governança, comprou-se um banco a partir de mera análise parcial de alguns indicadores em algumas horas de um final de semana... Meses depois, veio a público que o outrora incólume Merrill Lynch queimava bilhões de dólares em um autêntico poço sem fundos. A propósito, o genial CEO desta empresa teve a iniciativa de solicitar bônus ao conselho da empresa ao final do ano. Muito provavelmente, o seu contrato deveria ter sido escrito com os sinais invertidos - seria o primeiro caso de bônus por destruição de riqueza.
A bem da verdade, os exemplos têm se multiplicado nesta década, que começou com Enron, Andersen, Werlot Comp e Parmalat, e agora está ganhando novos horizontes e adeptos no exterior e até na Índia (vide Wipro).
Também é verdade que o mercado, nos últimos 20 anos, tentou se proteger de si próprio, criando e institucionalizando conceitos e práticas como Responsabilidade Social, Sustentabilidade e, principalmente, Governança Corporativa, com o intuito de evitar tais cataclismas econômico-financeiros, geradores de crises sistêmicas de confiabilidade e credibilidade.
Recorrendo aos conceitos centrais psico-sócio-antropológicos de nossa natureza humana, o ato de comerciar depende, em essência, de 3 fatores-chave para acontecer com benefícios para as partes envolvidas: interesse/motivação individual, necessidade complementar entre as partes e confiança mútua. Este último item, justamente, se traduz no pilar central da crise atual, impulsionada por um sistema de produção de riquezas que transformou fumaça e poeira em dólares falsos, a partir da apropriação de instrumentos como seguros e resseguros, hedges, empréstimos descobertos, derivativos e todo arsenal de comercialização de expectativas, chutes e intenções.
Apesar de bem-intencionada e relevante, a Governança Corporativa falhou em seu papel de prevenir o mercado de suas ameaças intrínsecas. Talvez porque tenha normatizado melhores práticas de gestão e esquecido de associar ao seu menu as questões da natureza humana. Talvez porque a capacidade humana de burlar modelos definidos seja superior à capacidade de controle, monitoramento e punição. Talvez porque as regras não estivessem claras ou consensadas o suficiente, ou ainda porque a visão de longo prazo que a governança tanto privilegia estivesse em desacordo com os interesses individuais dos líderes e investidores corporativos, sempre focados no próximo quarter.
Um novo mercado emergirá desta tempestade. Com ele, novos modelos de governança e compliance, novos líderes e formatos de contratos e, quem sabe, a velha credibilidade sistêmica respaldada na confiança mútua de que o tit 4 tat (ou “aqui se faz, aqui se paga”) voltará a imperar no sub-consciente dos agentes econômicos que atuarão no palco dos negócios globais. Assim seja!




















"Nas inúmeras reuniões, discussões e até projetos que tenho participado nos últimos meses, percebo os executivos em posição de decisão cada vez mais angustiados com sua obrigação de continuar gerando valor aos seus acionistas a partir de margens históricas performadas em um mundo que não existe mais." [...]



